Sobre Yoga

YOGA

Definição

A palavra Yoga, em sânscrito, pode ser compreendida como ‘união’, ‘integração’ ou ‘unidade’ ou ‘jugo’, derivada da raiz verbal YUJ, ‘unir’, ‘atrelar’. Em termos espirituais, seria a união da consciência individual com a consciência universal. Na prática, Yoga é um meio de integrar e harmonizar corpo e psique.

Patânjali, compilador do primeiro texto dedicado ao Yoga de que se tem notícia, o Yogasutra, define: “Yoga é a paralisação dos movimentos da mente”. Pois só quando a mente está nesse estado de imobilidade é que o praticante “se estabelece em sua própria natureza essencial e fundamental”. Assim, percebemos o Yoga como um sistema filosófico de caráter prático que visa a conduzir o ser humano à sua própria essência, da qual o Homem está distanciado.

Nas palavras do professor M. L. Gharote, “atingimos o Yoga por meio do Yoga”. Assim, percebemos que Yoga, assim como a Meditação, é o objetivo a ser alcançado, e também o meio para alcançá-lo. Yoga é Meditação.

 

Histórico

O Yoga surgiu há milhares de anos como um conjunto de técnicas praticadas por pessoas que se retiraram dos grandes ambientes sociais para, isoladas ou em pequenos grupos, buscarem a “sabedoria suprema”, a “auto-realização”. Eram técnicas secretas cujo conhecimento estava restrito a esses pequenos grupos. Não se pode precisar quando essas técnicas surgiram, mas há indícios da prática de técnicas de Yoga desde a mais remota história conhecida da Índia. Na mitologia hindu, é dito que o Yoga foi ensinado aos homens pelo deus Shiva, para que estes pudessem realizar seu potencial divino. Shiva, um dos três deuses mais relevantes do panteão hindu, é responsável pela destruição da ignorância do mundo. Assim, o objetivo da prática do Yoga estaria na extinção dos padrões nocivos da mente humana.

Foi a partir do Yogasutra, tratado em que Patânjali expõe as técnicas do Yoga e sua fundamentação filosófica, que o Yoga passou a ser conhecido abertamente.

 

Os Caminhos do Yoga

O Yogasutra expõe as técnicas do que veio a ser chamado “Raja Yoga”, o “Yoga Real”, que também pode ser chamado “Yoga Clássico”. Pela complexidade de suas técnicas e pela entrega necessária à prática desse sistema, era claro que se tratava de algo que somente poderia ser integralmente seguido por alguém que renunciasse às suas atividades mundanas para dedicar a vida exclusivamente a esse caminho.

Mas, como na Índia tudo se transforma para que se adapte aos diferentes contextos, logo surgiram outras formas de se praticar Yoga, algumas delas populares, que enfatizavam certas características específicas do sistema original exposto por Patânjali. As mais conhecidas são as seguintes: Karma Yoga (Yoga da Ação), Bhakti Yoga (Yoga do Amor ou da Devoção), Jñana Yoga (Yoga do Conhecimento) e Hatha Yoga (Yoga da União dos Contrários ou Yoga da Força).

Filosofia

O sistema exposto no Yogasutra propõe a prática e o desapego para se alcançar ao estado de Yoga. A prática é composta por oito passos, a saber:

Yama (disciplina externa, refreamentos): são atitudes que devemos controlar para evitar perturbações desnecessárias em nossa vida, o que atrapalharia nossa prática. São cinco: Ahimsa (inofensividade, não violência), Satya (veracidade), Asteya (não desejar aquilo que não nos cabe), Brahmacarya (continência, evitar desperdício de energia) e Aparigraha (não-possessividade).

Niyama (disciplina interna, observâncias): são atitudes que devemos observar para cultivar um estado favorável à prática. São cinco: Sauca (purificação), Samtosa (contentamento), Tapas (austeridade), Svadhyaya (auto-estudo) e Isvara-pranidhana (entrega a Deus).

Asana (postura)

Pranayama (controle do alento)

Pratyahara (retração dos sentidos)

Dharana (concentração)

Dhyana (meditação)

Samadhi (estado de Yoga)

 

Prática

Dentre as diferentes formas de se praticar o Yoga, cada pessoa deve buscar aquela a que melhor se adapte, de acordo com suas aptidões, necessidades e objetivos. O Hatha Yoga tradicional é um sistema muito adequado às pessoas inseridas no contexto sócio-cultural da civilização ocidental, pois sua linguagem inicial é a do corpo, com a qual todos temos familiaridade. No entanto, veremos que isso não significa que seja um sistema voltado só ao corpo, já que simplesmente se serve dele, o nosso nível mais grosseiro, para nos conduzir a níveis cada vez mais sutis de percepção.

O treino de atitudes (Yama e Niyama), em qualquer forma de prática de Yoga, é essencial para que seja criado um estado favorável ao aproveitamento das demais técnicas e para que sejam estabelecidas bases sólidas sobre as quais o conjunto da prática poderá se desenvolver seguramente e com os resultados almejados. Com o constante e correto treino de atitudes, a prática começa pelo trabalho dos asana (posturas) e dos kriya (técnicas de purificação).

Nesse nível, o objetivo é estabelecer plena saúde. A partir daí, o Yoga passa a atuar em níveis mais profundos, como o mental e o emocional, utilizando técnicas cada vez mais sutis, como pranayama (técnicas de respiração) e outras técnicas meditativas. Pelas práticas tornamo-nos conscientes da inter-relação existente entre nosso corpo, mente e emoções, e de como um desequilíbrio em um destes níveis afeta aos demais.

 

Benefícios

O objetivo das práticas de Yoga é a criação de um estado mental muito específico, que pode ser chamado Meditação. É um processo, uma maneira de estar no mundo. Os benefícios que esse processo pode nos proporcionar são muitos, sendo os mais importantes deles tão sutis que é difícil descrevê-los em termos objetivos. Por isso, todos os textos clássicos enfatizam que só se pode conhecer o Yoga pela prática, experimentando seus resultados. Por outro lado, há também muitos benefícios que fazem parte do processo que podem ser facilmente observados, descritos e até mensurados, como vem sendo feito em muitos institutos de pesquisa, no Ocidente e no Oriente. Assim, a prática do Yoga:

  • estabelece saúde e resistência física e mental;
  • oferece outra perspectiva para lidar com o estresse, as tensões a que estamos submetidos no dia-a-dia e a ansiedade;
  • aumenta flexibilidade, coordenação motora e força muscular;
  • desenvolve concentração, disciplina, autocontrole e autoconfiança;
  • reeduca a respiração e aumenta a capacidade cárdio-respiratória;
  • promove expansão da consciência;
  • harmoniza corpo, mente e emoções;
  • estabelece relaxamento e bem-estar.

Além das necessidades individuais, os princípios do Yoga são um valioso instrumento para promover o desenvolvimento de uma sociedade saudável. O Yoga oferece um caminho para as pessoas encontrarem seus próprios modos de se conectar ao seu verdadeiro ser, possibilitando assim a manifestação de harmonia, compaixão e felicidade.

 

Fonte: PANDIT, João.

______________________________________________________

Yamas

1-      Ahimsa  – “não-violência”. Mais do que não ser violento, é não ter nenhuma intenção violenta; é a não-violência em pensamento, palavra e ação.

2-      Satya – “verdade”. Não é só não mentir, é ser verdadeiro, reconhecer as coisas como elas são.

3-      Asteya – No sentido mais amplo, significa não desejar aquilo a que você não tem direito. Não é só “não roubar”. Alguém que deseja um objeto que pertence à outra pessoa não deve se vangloriar só porque não o roubou. Não desejar o que você não fez por conseguir não significa não ter aspirações. Refiro-me, como exemplo, àqueles  que, por motivos de “influência”, só aparecem no trabalho no final do mês para buscar o que chamam de salário, sem que tenham ido trabalhar um só dia; estas pessoas podem achar que não roubaram de ninguém.

4-      Brahmacarya – Em algumas tradições este preceito tem o sentido restrito de “celibato”. Linhas menos radicais sugerem um controle dos impulsos e sentidos, ou seja, a moderação em todos os hábitos. Também pode significar fazer tudo tão bem feito que sua obra possa ser dedicada ao Criador.

5-      Aparigraha – “Não possuir com apego”. Não colecionar só para ter as coisas, sem nunca usá-las. Entenda por “coisa” também os credos, filosofias e técnicas; ou seja, tudo o que você aprende e não põe em prática, não usa. Afinal, de nada adianta saber a bíblia de cor se não praticamos seus ensinamentos.

Estas condutas só podem ser questionadas e analisadas pelo próprio praticante. Isto porque sempre alguém questionará suas decisões tomadas, mas você, ciente de seus objetivos mais nobres, e com a bagagem que carrega, é que será o dono das decisões. Considere este exemplo: você, no seu aniversario, recebe de seu sobrinho querido de 5 anos de idade uma peça de roupa muito feia. Você sabe que não dá para usá-la, tamanho é o mau gosto, mas achou aquilo lindo, então pergunta: “Tia (o), você gostou?”. Onde você se encaixa nesta situação? Prefere dizer a verdade e ser violento, ou ser simpático com o sobrinho e ter que mentir?

(Não muito diferente deve ter sido a situação de algum alemão que, na segunda guerra mundial, escondendo um amigo judeu em sua casa, foi interrogado por guardas nazistas com relação ao paradeiro do referido amigo. Mentir ou ser violento?)

Lembre-se sempre desta história do burro, do velho e da criança, e tenha certeza que sempre alguém vai criticá-lo:

Vinha pela estrada empoeirada e seca um burro puxado por um velho e uma criança, quando cruzam com alguém diz: “Que tontos, os dois cansados e o burro descarregado!” Logo o velho põe a criança no burro e continuam sua jornada, quando outra pessoa comenta: “Que absurdo, esta criança saudável montada e este pobre velho a pé”. Sem pensar muito o velho sobe no burro e a criança passa a puxá-lo. A próxima pessoa que os encontra diz: “Que velho cruel, faz esta criança de escravo!” Rapidamente, decidem pela ultima alternativa os dois montam o burro. Não tardou para ouvirem que iriam matar o burro.

______________________________________________________

 

Niymas

1-      Sauca – “Pureza”: sentir-se limpo por fora e por dentro. O sentido de purificação permeia toda a prática do Yoga.

2-      Santosa – “Contentamento” É fascinante quando Patanjali, neste momento, diz que você deve buscar o contentamento, afirmando que esta é uma opção sua. Ou seja: você prefere se sentir miserável ou desenvolver o contentamento? Isto significa que contentamento é dar valor para o que já se tem, e não ficar olhando o que está faltando.

Na verdade, nota-se que uma boa parte da população tem muito mais do que o necessário para viver, mas continua sentindo falta de coisas. A fórmula deste contentamento é então:

Contentamento =      Aquisições

——————-

Expectativas

Ou seja, muitas expectativas necessitarão de um igual numero de aquisições para que o contentamento de um igual numero de aquisições para que o contentamento seja igual a um. O ser humano é, de fato, estranho às vezes tem que perder as coisas para dar valor a elas. Alguém trabalha por muitos anos de acorda toda segunda-feira sentindo-se miserável pela longa jornada de uma semana inteira de trabalho. Parece que tem que ficar desempregado por seis meses para acordar novamente feliz numa segunda-feira porque vai trabalhar.

3-      Tapas – “Perseverança, determinação e disciplina”.

4-      Svadhyaya – “Auto-estudo”, a busca do verdadeiro “eu”.

5-      Isvara –pranidhana – O sentimento de entrega, de submissão de rendição a Deus. Isto implica reconhecermos que temos que fazer o melhor possível, mas que o resultado dos nossos feitos não está nas nossas mãos. Em outras palavras: devemos fazer, com toda honestidade, o que consideramos o melhor para o bem comem. O que vale é nossa intenção de fazer o que é correto.

6-      Dois monges peregrinavam à beira de um rio quando encontraram uma mulher que chorava por não conseguir atravessar o rio para voltar para casa. Um deles, o mais forte, carregou a mulher no seu colo e, abraçando a ela, em dez minutos a transportou. Voltando, reencontrou-se com o “irmão”, que depois de duas horas o questionou, dizendo: Você não acha que errou? Carregou aquela mulher linda, perfumada, encostou a pele dela na sua, conversaram tão próximos… mas nós fizemos votos de restrições com mulheres!” E o outro respondeu: “Não sei, eu só a carreguei por dez minutos, mais vejo que você a está carregando por duas horas”.

Todos os yamas e niyamas são igualmente importantes; a pratica de um nos leva à do        outro. Portanto, comece por qualquer um; esta é a sugestão dos mestres. Pequenos hábitos vão aos poucos modificando nossa forma de viver.

 

Fonte: ESTUDOS SOBRE O YOGA. Rodrigues, M. R.(org.), pag.. 52, 53, 54 – São Paulo: Phorte, 2006.